terça-feira, 2 de março de 2010


Se você me ama, não me ame

Certa vez li uma frase que dizia o seguinte: “Se você me ama, não me ame”, e levei um grande susto. Fiquei perplexa com a contrariedade que achei nesse pensamento. E já fui logo julgando o autor de frio, revoltado, desprovido de qualquer sentimento de afeto. Achei que se tratava de uma pessoa que não recebeu nenhum carinho na infância, não teve um animal de estimação, uma avó ou professora amorosa. Talvez tenha levado um fora da primeira namorada, ou fosse tão feio que nunca arrumara uma. E deletei essa frase dos meus devaneios diários, tirando-a do rol das minhas ‘grandes verdades’.
Como faço do filósofo Sócrates, minha grande inspiração, para desculpar minha permanente ignorância, adoto o famoso “Só sei que nada sei”. E reciclando minhas idéias, notei que tem uma grande verdade nessa frase, mas se acalmem; não estou com coração partido, muito pelo contrário, eu o restaurei todinho ao ver que o amor precisa ser redescoberto em seu significado. A palavra ‘amor’ sofreu mais que Romeu ao ver Julieta supostamente morta. Houve uma contaminação desta palavra, que interditou todo o processo do verdadeiro sentimento de amor, proposto por Jesus. A palavra que expressava um sentimento puro e desinteressado, hoje se transforma em desculpa para errar, para machucar a si e ao próximo. O que era intenção, hoje é produto; o que era paz virou aflição; o que era liberdade virou prisão; o que era prazer virou obrigação.
Para amar não precisamos de ordens, condenações, proibições, queixas e cárceres. Quanto mais livre, mais descompromissado, mais se ama, e mais se tem vontade de amar. O amor é um entusiasmo que se sente no peito que o aquece e acalma. Ele por si só se contenta e se satisfaz, não precisamos ter uma flor para amá-la. A natureza existe fora de nós e podemos amá-la, sabendo que está em todo lugar, no céu, no ar, na água. Não precisamos possuir o outro para amá-lo, enquanto se o possuímos, restringimos toda sua capacidade de sentir esse amor.
Amar requer desapego e não necessidade. Pede a compreensão de um sentimento maior, a aceitação do limite de cada em demonstrar, retribuir. O amor não é uma disputa para ver quem manifesta mais, esperando reciprocidade. Ele não precisa de provas, já existe por si. O resto é paixão, loucura, apego, costume, carência.
É evidente que é muito difícil amar assim, com tal desprendimento, mas não é impossível. Em nome do amor matam, castigam, privam, proíbem, cobram, prendem, humilham. E ainda assim, com tanto sofrimento, não reciclamos nosso modo de amar. Ligamos o conceito de amor ao sofrimento, á ansiedade, frio na barriga e insegurança, enquanto ele deveria acalentar; contentar; relaxar os envolvidos.
Só de pensar nesse amor modesto e sereno, sinto-o mais perto da humanidade, assim como uma semente pronta para germinar em terreno fértil. E ele será a solução para as guerras, chave para a solidariedade, fim de carências afetivas, extinção da solidão. Seu significado será amplo e claro, digno de ser usado na sua totalidade, e nunca mais temido ou fonte de aflições.